AGÊNCIA E INTENCIONALIDADES INDÍGENAS PELO AUDIOVISUAL: ENCAIXES NA ANTROPOLOGIA DA ARTE DE ALFRED G

Alfred Gell propôs uma abordagem da arte centrada na “ação”, em lugar das abordagens com ênfase na comunicação simbólica, nas definições institucionais ou nos critérios estéticos que dominaram o campo da antropologia da arte até os anos 90. Para Gell, a arte é um sistema de ação cujo fim é mudar o mundo e não codificar proposições simbólicas a respeito do mundo.” Esse sistema de ação envolveria “agência, intenção, causação, resultado e transformação.” Agência pode ser definida como uma forma de poder, uma propriedade, uma qualidade, uma capacidade de agir, de afetar, entretanto, agência não deve ser entendida de um ponto de vista essencialista, auto-contido, mas em um âmbito relacional e processual.


Assim, uma obra de arte não seria um fim em si mesmo, não se definiria por si só, ela está inserida em um emaranhado de relações, ela presentifica conhecimentos e um conjunto de intencionalidades. Em sua teoria antropológica da arte, os objetos de arte equivalem a “agentes sociais”.


Proponho aqui fazer uma aproximação entre a teoria antropológica de Gell e a agência do audiovisual produzido por e sobre indígenas. O processo de fazer um filme e o próprio filme (objeto) resultante desse processo podem causar transformações nas relações sociais e nas práticas culturais? Como realizar um filme pode afetar a vida de quem o faz? Como pode agir sobre a vida do próprio cineasta?


A transição para as “novas mídas” se inicia na década de 80 com a chegada do VHS (Video Home System), na forma de câmeras portáteis de filmagem e de video-cassetes para exibição doméstica. Nesse momento, o vídeo se distingue do cinema pois instaura outras formas de fazer, distribuir e assistir audiovisual. Não por acaso, em 1986, surge no Brasil um projeto pioneiro chamado Vídeo nas Aldeias . O primeiro documentário Festa das Moças foi feito entre os Nambiquara de Mato Grosso. Vincent Carelli, antropólogo e fundador do Vídeo nas Aldeias relata as surpresas dessa primeira experiência:


“Quando eu comecei, a ideia era que o vídeo seria um instrumento de troca de informação, denúncia...Quando fui a campo na aldeia Nambiquara, tinha roubo de madeira, problemas é que não faltavam. Mas eles não estavam minimamente interessados em fazer denúncia. ‘Nós queremos fazer a furação de orelha’ O que eles queriam que eu filmasse não era nada do que eu pensava para que ia servir o filme. E isso eu tive que entender na hora, eles estavam interessados nas suas riquezas culturais.”



Ainda sobre os Nambiquara, Vincent dá outra dimensão para câmera que não só a como meio, veículo mas a de dispositivo, de acionador no contexto das relações sociais.


“Foi assim que o capitão Pedro assumiu a direção das minhas filmagens. O meu estilo de filmagem, de iniciante auto-didata foi moldado por este dispositivo, o que me jogou de imediato no video-transe sem jamais ter ouvido falar em Jean Rouch. O transe , é claro era nosso e deles, que ao cabo de várias performances para ajustar a sua imagem, resolveram realizar a cerimônia de furação de nariz e lábios, prática abandonada há mais de 20 anos. Foi uma experiência catártica, muito além das expectativas iniciais, que nos demonstrou o poder da ferramenta e do dispositivo.”


O caso de Divino, um dos cineastas indígenas mais conhecidos do país, mostra seu filme Mulheres Xavante sem nome como um agente capaz de afetar pessoas, coisas, relações, a partir de uma gama de intencionalidades daqueles que filmam e que são filmados, que causa efeitos previstos e imprevistos e por vezes consegue transformar o processo social em curso.




“A questão era que a comunidade não queria a festa, pois envolvia o que eles denominavam “a coisa”. Apesar de toda a resistência, o Divino decidiu conversar com as mulheres mais velhas que revelaram afinal, qual era o nó da questão, o porquê da festa não acontecer mais. Ao contrário dos homens, as mulheres falavam abertamente sobre o problema. A festa envolve a troca de mulheres. A coisa era o sexo com os cunhados” (Vincent Carelli – Vídeo nas Aldeias)




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*Luisa Godoy Pitanga – antropóloga e educadora audiovisual. Mestre em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.



GELL, Alfred. 2001. “A rede de Vogel, armadilhas como obras de arte e obras de arte como armadilhas. In Arte e Ensaios - Revista do Programa de Pós- Graduação em Artes Visuais. Escola de Belas Artes. UFRJ. ano VIII - número 8: 174-191.


GELL, Alfred. 1998. “Definição do problema: a necessidade de uma antropologia da arte”. "The problem defined: the need for an anthropology of art" e "The theory of the artnexus". Art and Agency. An Anthropological Theory. Oxford : Clarendon Press. pp. 1-27.


Depoimentos do realizador indígena (Divino Xavante) e oficineiros (Vincent,Tiago) extraídos do livro comemorativo dos 25 anos do Vídeo nas Aldeias (1986-2011), publicado em 2012.


Depoimento de Vincent Carelli extraído do seminário Cinema e Povos Indígenas, realizado em 1993 e publicado no livro Cinema e Antropologia – Horizontes e Caminhos da Antropologia Visual.





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