PERFORMANCE CULTURAL E FESTIVAL POPULAR: AS FESTAS JUNINAS

Cada festival popular pode ser entendido como uma performance expressiva das identidades de um povo, exibindo, na esfera pública, o sistema de valores de uma comunidade. Esses tipos de comemorações mudam com o tempo e, dependendo do país e de suas regiões, podem adotar características específicas. A festa junina, uma das festividades mais populares do Brasil, está composta por vários elementos que ajudam a compor o ambiente da festa, o arraial: os santos e as simpatias, a música, a decoração tradicional, fogos e fogueiras, as caipiras (roupas típicas), as barraquinhas –de brincadeiras, comidas e bebidas– decoradas com bandeirinhas coloridas e as quadrilhas que representam

 

 [...] “encenações coletivas e com estruturação que incluem, em seus espetáculos, música, dança e dramatizações. São executados por um grupo determinado de brincantes, liderados por um mestre, obedecendo a uma hierarquia e organizados segundo uma estrutura complexa de personagens. Em suas apresentações organizam-se como cortejos e encenam seus espetáculos em plena rua, em praças ou terreiros, por ocasião de festejos populares públicos ou familiares” (Barroso, 2013, p. 116).

 

Esse tipo de performance cria cenas, como um jogo teatral no qual esses diferentes rituais e essas cerimônias se encaixam em uma dimensão espacial cênica: dançar, fantasiar-se, reunir-se. Isso gera formas específicas de visualidade, de construções simbólicas, neste caso, do mundo rural e da vida camponesa. A seguir, propomos proporcionar uma visão geral desta celebração.

 

 

A origem

 

As festas juninas realizadas no Brasil são uma marca da colonização portuguesa. Elas marcam um ciclo de festividades para celebrar três santos importantes para Portugal e para o cristianismo ocidental: Santo Antônio (dia 13), São João (dia 24) e São Pedro (dia 29). Inicialmente, os festejos não possuíam nome que os unificasse. O termo 'festas juninas' foi criado posteriormente, no período da República (depois de 1889), como uma forma de identificação nacional.

 

As festas são comemoradas em junho porque os três santos católicos são celebrados neste mês. Junho também é o mês em que se encerra o período estritamente religioso entre a Páscoa e o Corpus Christi. Além disso, em junho ocorre o solstício de verão, dia de passagem da primavera para o verão. A troca de estações era celebrada pelos povos pagãos europeus, como uma forma de cultuar os deuses da natureza, e estas celebrações foram ressignificadas pela Igreja Católica. As festas juninas comemoradas no Brasil guardam um pouco dessa tradição, e são comemoradas em acordo com o calendário de plantio e colheita do milho a partir do período de chuvas.

 

Os índios que habitavam o Brasil antes da chegada dos portugueses também faziam rituais importantes em junho. Eles tinham várias celebrações ligadas à agricultura, com cantos, danças e muita comida. Com a chegada dos jesuítas portugueses, os costumes indígenas e o caráter religioso dos festejos juninos se fundiram. Já a valorização da vida caipira nessas comemorações reflete a organização da sociedade brasileira até meados do século XX, quando 70% da população vivia no campo.

As Quadrilhas.

 

Um dos aspectos centrais das festas juninas é a quadrilha. A dança de quadrilha tem origem anglo-saxã. A população campesina daquela região ao retornar de seus trabalhos na lavoura –principalmente no inverno– dançava uma coreografia herdada dos celtas. Esta coreografia foi aprimorada e a partir da guerra entre França e Inglaterra a dança passou a povoar o imaginário de franceses, ingleses e portugueses. Das contradanças dos salões franceses do século XVII para a corte portuguesa, o estilo chegou ao Brasil no século XIX trazido pelos nobres portugueses juntamente com a Família Real portuguesa, em 1808, e foi sendo adaptado até fazer sucesso nas festas juninas. A quadrilha inicialmente era um conjunto de coreografias com cinco partes, cada uma com ritmos e músicas diferentes, uma seqüência coreografada de movimentos alegres.

 

 

Quadrilha Tradicional  - Quadrilha estilizada

 

No Nordeste do Brasil, tem sido frequente classificar as quadrilhas em tradicional (também conhecida como caipira, ou matuta) ou  estilizada. A primeira é marcada pela representação mais ou menos pejorativa do homem “caipira”, ou “matuto”, numa versão que pretende ser mais próxima da tradição – daí seu nome “tradicional”. A “nobre” quadrilha estilizada, recriando as referências rurais numa visão universal, em que o homem do campo se aproxima de homem globalizado que trabalha a terra “sem sujar as mãos”.

 

Os ritmos

 

No Brasil, as danças e músicas variam conforme a região. Na Região Centro-Oeste, no Mato Grosso, se impõe o siriri e o cururu, dança com elementos africanos, portugueses e espanhóis. O nome indígena é referência aos cupins com asa, que voavam num ritmo parecido com a dança nas luminárias. Os versos são cantigas populares, do cotidiano da região.

 

Na Região Norte, nos arraiais das festas juninas de Belém do Pará, com suas danças, quadrilhas e comidas típicas –aqui muito diferentes e com mais influência dos povos indígenas – predominam  o  carimbó e os rituais do Bumba-meu-boi, chamados genericamente de toadas.  Há o Arraial do Pavulagem, um grupo musical que toca danças típicas e que, com seus dançarinos e bois, percorre a cidade até atingir um grande palco.

 

O Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, é uma representação em que duas associações competem: o Boi Garantido, vermelho, e o Boi Caprichoso, azul, no Bumbódromo, um estádio estilizado em forma de boi. Suas danças e a teatralização de lendas estão estreitamente ligadas aos povos indígenas.  Já em Alter do Chão, no Pará, há a Festa do Sairé ou Çairé na qual  os grupos rivais são os do boto cor de rosa, o golfinho rosa da Amazônia, e o boto tucuxi, também um golfinho cinza do rio.

 

No Nordeste, as composições do sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga são as mais famosas. Hoje, as grandes festas juninas se concentram nesta região, com destaque para as cidades de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB) onde o forró e distintos gêneros musicais como o xote, baião, arrasta-pé e o xaxado correm solto nas festas. 

 

Já no Sudeste, compositores como João de Barro e Adalberto Ribeiro (“Capelinha de Melão”) e Lamartine Babo (“Isto é lá com Santo Antônio”) fazem sucesso em volta da fogueira.

 

A festa de São João na região Sul é aquecida pelo ritmo do vanerão, uma dança típica entre os gaúchos e também muito popular no Paraná e Santa Catarina, e pela dança das fitas, que possui origem portuguesa e espanhola mas foi agregada a cultura sulista.

 

Brincando no arraiá

 

O arraial é o centro das festividades juninas, o espaço que recria o ambiente rural, em todas as cidades onde são comemoradas. São os espaços decorados com bandeiras coloridas, balões e palha onde estão as barracas de comida e os palcos em que músicos e dançarinos se apresentam. As bandeirinhas, a caipira, a fogueira e a comida são itens que não podem faltar no arraial.

 

As bandeirolas, principal enfeite decorativo das festas juninas, surgiram como forma de homenagem aos três santos “padroeiros” das festas juninas. Inicialmente, as imagens dos santos eram pregadas nas bandeiras coloridas e imersas em água, rito conhecido como lavagem dos santos, pois segundo crença popular, a água purifica todos aqueles que se molham com ela. As bandeirinhas diminuíram de tamanho mas continuam até hoje com a mesma simbologia: de purificar o ambiente da festa.

 

A caipira é a vestimenta típica para dançar quadrilha. Os vestidos de quadrilhas foram inspirados nas roupas usadas no bailes da corte europeia, nos quais as mulheres tinham que usar vestidos voluptuosos e rodados. Já no Brasil, nos salões da nobreza os casais dançavam trocando de pares. Usavam anáguas, roupas exageradas, perucas e tudo mais que a moda francesa mandava. Quando a contradança saiu dos salões para invadir as festas populares, esses trajes originados nas roupas da nobreza influenciaram os camponeses que queriam vestir suas melhores roupas. Deste modo, os vestidos femininos ganharam movimento, estrutura e volume e acabaram sendo confeccionados com tecidos mais coloridos e chamativos. Para os homens, o traje com camisa, calça e colete era inspirado naquele da nobreza. Com o tempo, reinterpretações foram surgindo.

 

A fogueira já estava presente nas celebrações juninas feitas por pagãos e indígenas, mas também ganhou uma explicação cristã: Santa Isabel (mãe de São João Batista) disse à Virgem Maria (mãe de Jesus) que quando São João nascesse acenderia uma fogueira para avisá-la. Maria viu as chamas de longe e foi visitar a criança recém-nascida. Segundo a tradição, cada santo possui uma configuração de fogueira diferente: no caso de Santo Antônio, a fogueira deve ser quadrada; no caso de São Pedro, as toras devem ser dispostas de forma triangular; e no caso de São João, a disposição é circular. Os três santos inspiram não só novenas e rezas, como também várias simpatias. Acredita-se, por exemplo, que os balões levam pedidos para São João. Mas Santo Antônio é o mais requisitado, por seu “poder” de casar moças solteiras.

 

A comida típica das festas é quase toda à base de grãos e raízes que nossos índios cultivavam: milho, amendoim, batata-doce e mandioca. A colonização portuguesa adicionou novos ingredientes e hoje o cardápio ideal tem milho verde, bolo de fubá, pé-de-moleque, quentão, pipoca e outras gostosura. Ainda há a cultura do pinhão, ligada à sazonalidade da produção agrícola nos estados do sul do país.

 

***

 

Atualmente, as festas juninas estão sendo adaptadas aos novos tempos, por exemplo, revertendo o papel atribuído às mulheres, questionando o estereótipo do camponês o fazendo a festa junina gay, como acontece no Ceará.

 

 

Bibliografía

 

Barroso, H. (2013). Prepare seu coração pras coisas que eu vou contar: Um ensaio sobre a dinâmica das quadrilhas juninas no Ceará. Dissertação de Mestrado: Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza. Disponível em https://bit.ly/2UBnGxK

Castro, JRB. (2012) Dinâmica e especificidades culturais das festas juninas espetacularizadas em espaço público. Em: Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas no espaço urbano. EDUFBA, Salvador. Disponível em https://bit.ly/37mrNmB

 

 

 

* Docentes del Profesorado en Portugués e integrantes del Proyecto “Cultura y sociedad en Argentina y Brasil: siglos XX y XXI” (Universidad Nacional de La Plata, Argentina). Mails: rosanne.nascimento@bue.edu.ar, fatifranportugues@gmail.com, capasso.veronica@gmail.com

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